quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Sempre que Mariella estava à frente de um computador lembrava-se de um episódio um tanto triste: quando criança, seu pai havia viajado, uma viagem de negócios. Mariella estava dormindo em um colchão no quarto de seus pais, acordou com um beijo no rosto. “já vai?”, perguntou. Não se lembra da resposta do pai, estava sonolenta.
Falou com ele apenas mais uma vez, no telefone, ele havia ligado, mas Mariella não se lembra o que conversaram, apenas que o pai lhe traria um computador de presente. Ela pulou de alegria, e desejou aquele computador como nunca havia desejado algo até então, e como todas as outras vezes, algo de errado aconteceu (sempre que Mariella desejava muito qualquer coisa, algo dava errado), seu pai não iria chegar com o computador, ele nunca mais iria voltar.
No dia seguinte, acordou cedo, como jamais havia acordado. Dirigiu-se até a sala, havia muita gente, não conhecia muito bem aquelas pessoas. Sua mãe estava chorando, e ela não entendera o motivo. Coçou os olhos e olhou novamente. Ela via uma pessoa de preto, parecia uma batina, então Mariella pensou “o que um padre faz aqui?”. Até hoje não teve uma confirmação se aquele “ser” era realmente um padre ou coisa de sua cabeça.
Voltou para cama e continuou pensativa, cochilou. Depois de algum tempo, seu tio, o que morava em outra cidade, estava lá. Ela não entendeu, sempre foi ingênua. Ele disse “seu pai teve que ir para o céu”. Mariella olhou, e continuou avoada, não entendera que seu pai havia morrido.
Abismos na cabeça de Mariella a impedem de se lembrar o que aconteceu depois. Mas ela se lembra que entrou em um carro, sua mãe estava ao seu lado, chorando. “O que realmente aconteceu?”
Não tivera coragem de olhar seu pai dentro daquela coisa de madeira. Sua prima levou-a para a esquina da casa de sua avó, e disse “quando as pessoas vão para o céu, existem camas com os nomes de cada um. E todos nós temos uma cama lá, seu pai foi para a cama dele”. Mariella não se prendeu ao fato de seu pai ter ido embora e sim ao fato dela ter uma cama no céu, ficou realmente interessada.
Voltou para a casa de sua avó, olhou pela janela com grades, tomou coragem e entrou na sala grande. Ela, minúscula, pobre criança ingênua chegou bem próximo ao caixão de seu pai, e observou sua cara pálida e uma ferida em sua testa. Veio em sua cabeça o boneco que ele havia dado-lhe de presente: um soldado com a mesma ferida, no mesmo lugar.
Mais tarde, fora com a amiga de sua mãe, para o enterro. Não quis entrar (apesar de ter ficado curiosa, “como enterrariam ele?”). Ficou lá fora, em frente a um boteco de esquina. Achou honrosa a atitude daquela mulher de ter feito companhia. Mariella, apesar dos seus seis anos de idade, sabia que não era sua obrigação estar com ela ali. Entrou no boteco, comprou um salgadinho e apagou tudo aquilo de sua memória.
Quando chegou à escola, todos os seus colegas estavam comentando. Ela se sentia péssima com a situação, odiava a solidariedade das pessoas por dó. A professora levou-a para o corredor próximo a secretaria e mostrou o trabalho que eles fizeram em sua ausência. Eram margaridas, colocadas em água com anilina: elas ficaram da cor do corante.
Mariella acordou alguns anos depois, quando sentiu imensa falta de um pai. Não havia alguém para presentear em agosto, não havia alguém para dar bronca, não havia alguém para dar um abraço de pai. Chorou compulsivamente em seu quarto.

5 comentários:

  1. Cada dia me envolvo mais c Mariella... mas hj realmente me fez lembrar o q eu não queria... deu num nó na garganta... lembrei da minha mãe... muito ruim perder uma pessoa importante...

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  2. eu perdi meu pai com 10 anos e entendo as sensações dela...
    beijo

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  3. Nossa, quase chorei...
    Não me imagino sem meu pai. Não mesmo.

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  4. nossa q triste, nao quero perder meu daddy nunquinhaa

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  5. continue a história de mariella, estou ficando fascinada

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